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Sair de casa é a solução?

Junho 27, 2008

No meu caso foi, pois me sentia presa a um mundo que não era meu. O difícil foi convencer minha mãe que esse era o meu caminho. Aos 14 anos, fui morar com os meus tios no interior de Minas. A cidade fica no Triângulo Mineiro e é uma das melhores do Estado para se viver. Tinha tudo para conseguir chegar ao meu objetivo: ser independente! Entretanto, morar com família que não seja a dos seus pais é uma tarefa ainda mais complicada. Esse período foi difícil, pois fiquei longe de casa quase um ano e a única coisa que havia conseguido era mais problemas. Não agüentei a pressão e voltei para casa. Não era feliz com aquela situação, a cidade era muito pequena e meus amigos eram todos héteros. O desejo de ir embora não havia acabado e briguei muito para conseguir ir embora.

Fui para Belo Horizonte com 17 anos, morei com os meus primos 6 meses e tive que procurar outro lugar para morar. Eles tinham muitos problemas de ordem financeira e eu seria mais uma encrenca na vida deles. Mesmo com todos esses obstáculos, não voltei para casa. As pessoas certas foram aparecendo no meu caminho e percebi que tudo era uma questão tempo. Aos 18 anos já trabalhava, estudava e morava com amigos. Foi nessa época que conheci os meus primeiros amigos homossexuais. Conhecê-los foi a melhor coisa que me aconteceu, pois me senti em casa e amparada. Um sempre estava ajudando o outro e, em pouco tempo, tinha outra família. Não havia momentos ruins, ou melhor, eles existiam, mas quando se está no caminho que você escolheu, o resto não passa de detalhes. Ainda me lembro da primeira vez que fui a uma boate GLS: foi um sonho misturado com várias sensações. Aquele foi um período que marcou a minha vida e que me fez ser o que sou hoje.

Mãe, que não era boba, fazia de tudo para dificultar a minha vida: não me ajudava financeiramente e, quando se encontrava comigo, era para chorar e fazer aquela pressão psicológica. A família toda se empenhava em me levar de volta, mas resisti bravamente ao conforto do meu lar. E assim foi, até que um dia encontrei a minha primeira namorada. Só tinha tido rolinhos e nada muito sério antes. Começamos a viajar juntas para minha cidade e, em pouco tempo, ela conheceu toda a família. Ficava com receio de chegar para a minha mãe e contar a verdade, principalmente porque minhas tias, primas e amigas já sabiam da minha orientação sexual e ela, não. Foi quando tive que contar a verdade e, numa madrugada de sábado para domingo, resolvi desabafar. Acordei às 3 horas da manhã e fui tomar água. Ela ouviu o barulho na cozinha e foi atrás. Estava sentada quando ela chegou e me perguntou o que estava fazendo acordada àquela hora. Respondi que estava com sede e ela foi logo se sentando e acendendo um cigarro. Percebi que ela queria falar alguma coisa, mas não conseguia. Então perguntei se ela estava preocupada com algo e ela disse que se preocupava muito com os filhos. Em tom de brincadeira, disse que não precisava se preocupar comigo, pois sempre fui muito certinha e não corria o risco de ficar grávida. Ela me olhou, pensou e continuou falando das preocupações que tinha com relação aos filhos. Esperei a minha vez e disse que não gostava de homens, que a minha orientação sexual era outra. E foi aí quando ela resolveu falar: “Amo você do jeito que você é. Se esse é o caminho que você escolheu, caminharemos juntas”. Acho que nesse dia ela entendeu porque a filha dela saiu de casa tão cedo e porque não me sentia bem morando com a família. Foi difícil, mas se tivesse que voltar no tempo, faria tudo de novo. Ganhei experiência, maturidade e liberdade. Claro que não aconselho ninguém a sair de casa… Cada caso é um caso. O meu era simples: precisava me conhecer melhor, andar com as minhas próprias pernas e encontrar as respostas que não tinha naquela época. Hoje não sinto vontade de voltar a morar na minha cidade, mas quem sabe um dia, quando ficar velhinha, eu volte.

Mandy

One comment

  1. Eu nao consigo sair de casa!!!Tenho a minha independencia financeira que consegui com muito esforco,porque sempre tive o receio que por causa da minha orientacao sexual fosse ser expulsa de casa a qualquer momento e poderia passar necessidades.Ate aos 19 anos meus pais pagavam os meus estudos,depois disso,comecei a ganhar o meu proprio dinheiro,queria aprender tudo que fosse ”aproveitavel” e depois de alguns anos,posso dizer que sou livre financeiramente.O ideal e sair para se descubrir …e comcerteza hoje estou preparada para sair de casa…se for necessario.Tenho tudo que necessito,mas como nao gosto de ficar sozinha…vou levando a minha vida na casa da mammy.

    Desejo muita sorte para as que decidirem percorrer esse caminho…

    Beijos


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